Revolução!
A vida não está fácil para os criadores de trutas. E é inegável que os fabricantes de cachimbos vivem tempos de verdadeira crise. Seja como for, isso não é nada comparado com o que se passa na - perdoem-me o termo - literatura. As palavras caras estão pela hora da morte. E as coisas tendem a piorar porque a hora da morte anda ligeiramente adiantada.
Os escritores pobres e remediados, também chamados "menores", por terem em muitos casos menos de dezoito anos, estão confinados a uma meia dúzia de palavras banais por dia e a algumas ideias que qualquer pessoa daria de barato. Não admira, por isso, que se sucedam as notícias de que há cada vez mais escritores delinquentes. Sempre que um escritor mais bem sucedido se distrai num congresso, lançamento ou cocktail, é certo e sabido que há um exército de escritores menores que lhe assaltam os cadernos para roubar todas as palavras caras.
Entretanto, e para agravar a situação, deixaram de existir dicionários disponíveis nas livrarias e a maioria das bibliotecas foi sujeita a devastadoras pilhagens. Os livros não passam agora de resmas de folhas em branco, despojados que foram de todas as palavras, incluindo as referências ao depósito legal.
É com este tipo de problemas que os governos e as autoridades em geral se defrontam actualmente: escritores desesperados e dispostos a tudo para obterem a sua dose diária de palavras. Talvez este seja o primeiro sinal, e quem sabe também o segundo, de que a revolução está cada vez mais próxima
"caravana" de Rui Manuel Amaral - editora: angelus novus