Quinta-feira, Abril 24, 2008
"QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS"
Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante
Natália Correia
Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante
Natália Correia
Quarta-feira, Abril 23, 2008
Terça-feira, Abril 22, 2008
Sexta-feira, Abril 18, 2008
Quinta-feira, Abril 17, 2008
-----------------------Prokofiev's Peter & the Wolf (2006)
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A versão animada da "Break Thru Films" da obra clássica de Prokofiev, gravada pela mundialmente famosa Philharmonia Orchestra, foi produzida nos estúdios "Se-ma-for Studios" na Polónia (vencedores de um OSCAR) utilizando "stop-frame model animation" (técnica popularizada em Wallace & Gromit da empresa Aardman Animations) e dispondo das mais avançadas técnicas digitais.
REALIZADOR
Suzie Templeton
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A versão animada da "Break Thru Films" da obra clássica de Prokofiev, gravada pela mundialmente famosa Philharmonia Orchestra, foi produzida nos estúdios "Se-ma-for Studios" na Polónia (vencedores de um OSCAR) utilizando "stop-frame model animation" (técnica popularizada em Wallace & Gromit da empresa Aardman Animations) e dispondo das mais avançadas técnicas digitais.
REALIZADOR
Suzie Templeton
Terça-feira, Abril 15, 2008
A história de Pim Van Nunen
Pim Van Nunen tinha nascido com um defeito terrível e um dom maravilhoso. E ambos em igual medida.
E qual era exactamente o defeito? Van Nunen tinha uma voz horrível, insuportável, atroz, absolutamente insustentável para o ouvido humano. Às vezes lembrava um caracol a ganir. Outras vezes assemelhava-se ao lancinante grito das árvores da borracha em dias de calor. Outras ainda, embora em menor grau, fazia lembrar o terrível relinchar das abelhas em pleno trabalho de parto. Outras comparações serão mais discutíveis e por isso parece-me inoportuno apresentá-las. Enfim, as pessoas recuavam vários passos - cerca de uma centena, se querem saber - quando Pim punha as cordas vocais a funcionar. Mas, oh sim, em contrapartida tinha nascido com um dom maravilhoso. A voz da sua consciência era de uma beleza absolutamente inigualável. Límpida, sedutora, mágica. Não sendo a de um contratenor puro, situava-se algures entre a de um alto e a de um soprano, passando do falsete para as notas mais graves com incomparável suavidade e competência. De resto, Pim Van Nunen tinha sido um menino prodígio. Desde pequeno que era acolhido nas principais salas de espectáculos do mundo inteiro com o unânime aplauso da crítica e do público. A qualidade da voz da sua consciência ultrapassava largamente a dos melhores cantores líricos do seu tempo.
O seu sucesso, porém, tinha um preço. Para a voz da consciência se fazer ouvir, Pim era obrigado a cometer as mais sórdidas e vis acções, a cultivar o delito e a mentira, a praticar a chantagem e muitos outros crimes abomináveis. Por isso, estava sempre a braços com problemas de justiça. Conhecia praticamente todas as instalações policiais das principais cidades do mundo. Era suspeito de crimes sem conta. Foi julgado e condenado dezenas de vezes. Claro que, dadas as circunstâncias, a história de Pim Van Nunen não podia acabar bem. Mas a verdade é que a história acaba muito bem. Mais tarde eu conto.*
Pim Van Nunen tinha nascido com um defeito terrível e um dom maravilhoso. E ambos em igual medida.
E qual era exactamente o defeito? Van Nunen tinha uma voz horrível, insuportável, atroz, absolutamente insustentável para o ouvido humano. Às vezes lembrava um caracol a ganir. Outras vezes assemelhava-se ao lancinante grito das árvores da borracha em dias de calor. Outras ainda, embora em menor grau, fazia lembrar o terrível relinchar das abelhas em pleno trabalho de parto. Outras comparações serão mais discutíveis e por isso parece-me inoportuno apresentá-las. Enfim, as pessoas recuavam vários passos - cerca de uma centena, se querem saber - quando Pim punha as cordas vocais a funcionar. Mas, oh sim, em contrapartida tinha nascido com um dom maravilhoso. A voz da sua consciência era de uma beleza absolutamente inigualável. Límpida, sedutora, mágica. Não sendo a de um contratenor puro, situava-se algures entre a de um alto e a de um soprano, passando do falsete para as notas mais graves com incomparável suavidade e competência. De resto, Pim Van Nunen tinha sido um menino prodígio. Desde pequeno que era acolhido nas principais salas de espectáculos do mundo inteiro com o unânime aplauso da crítica e do público. A qualidade da voz da sua consciência ultrapassava largamente a dos melhores cantores líricos do seu tempo.
O seu sucesso, porém, tinha um preço. Para a voz da consciência se fazer ouvir, Pim era obrigado a cometer as mais sórdidas e vis acções, a cultivar o delito e a mentira, a praticar a chantagem e muitos outros crimes abomináveis. Por isso, estava sempre a braços com problemas de justiça. Conhecia praticamente todas as instalações policiais das principais cidades do mundo. Era suspeito de crimes sem conta. Foi julgado e condenado dezenas de vezes. Claro que, dadas as circunstâncias, a história de Pim Van Nunen não podia acabar bem. Mas a verdade é que a história acaba muito bem. Mais tarde eu conto.*
* Três maçãs caíram do céu:
a primeira para quem escreveu,
a segunda para quem leu,
a terceira para quem compreendeu.
Apresentação de "Caravana" no Porto 19 de Abril, pelas 16h30. Livraria Gato Vadio (Rua do Rosário, 281)
"caravana" de Rui Manuel Amaral - editora: angelus novus























